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FUTURO EM DISPUTA
POR QUE
PRECISAMOS
FALAR SOBRE
O MOVIMENTO RED PILL?
Partimos do entedimento de que a resposta à radicalização dos adolescentes nas redes sociais está no letramento digital
Nos últimos meses, os casos de violência contra a mulher têm ocupado o feed das redes sociais dos brasileiros e chamado a atenção para a relação entre a misoginia e sua propagação vertiginosa nas plataformas digitais. No início do mês, essa conexão apareceu de modo especialmente brutal: o jovem de dezoito anos que participou do estupro coletivo de uma garota no Rio de Janeiro foi prestar depoimento vestindo uma camiseta com a frase “regret nothing” — “não se arrependa de nada”
A expressão remete ao influenciador red pill Andrew Tate, uma das figuras de maior visibilidade nesse universo. No X, ele reúne onze milhões de seguidores e construiu sua projeção pública ostentando carros de luxo, imóveis de alto padrão e falas sobre domínio masculino e submissão feminina.
O movimento red pill e a machosfera constituem um ecossistema digital que se expandiu por redes sociais, aplicativos de mensagem e plataformas de streaming de jogos. Seu núcleo discursivo gira em torno da ideia de que os homens precisariam tomar a chamada “red pill” (pílula vermelha) — referência à trilogia Matrix — para despertar para uma suposta verdade: a de que viveriam sob domínio feminino.
Esses canais se capilarizaram nas redes sociais como ações contrarevolucionárias frente a agenda feminista e LGBTQIAPN+ dos ultimos anos. Como observa Letícia Cesarino, trata-se de uma contrarreação reacionária
“A plataformização da internet após a crise de 2008 propiciou uma alavancagem sem precedentes dessa “contrarrevolução” reacionária não apenas no campo das relações de gênero, mas em todo o espectro da aliança (pós)neoliberal-conservadora analisada pela crítica feminista do neoliberalismo.”
Dentro desse universo discursivo, o feminismo é apresentado como uma força que teria desorganizado uma suposta ordem natural ao prometer igualdade entre homens e mulheres e ampliar a autonomia feminina. A partir dessa leitura, sustenta-se a ideia de que as mulheres agiriam de modo “hipergâmico”, buscando continuamente parceiros considerados superiores e concentrando seu interesse em um grupo restrito de homens identificados como “alfa”. Desse raciocínio deriva a noção de que muitos homens estariam condenados à rejeição afetiva e sexual, o que alimenta a identidade do chamado “celibatário involuntário”, o incel.
Esse movimento assume características próprias porque é sustentado pela dinâmica das plataformas, pela circulação intensa de conteúdos e pela lógica algorítmica que favorece engajamento, repetição e amplificação progressiva de determinadas visões de mundo.
Ao criar um perfil no TikTok, um garoto na faixa etária de 14 a 18 anos passa a receber uma enxurrada de conteúdos masculinistas em diferentes formatos, como cortes de podcasts red pills, dicas para se tornar um homem alfa, reacts contra criadoras de conteúdo feministas, entre outros. Com isso, as plataformas fomentam o primeiro contato com esses discursos e, por meio da arquitetura dos algoritmos, criam um fluxo discursivo contínuo, que se retroalimenta.
Como resultado, esses jovens tendem a ser imersos em um ambiente informacional que opera como uma “câmara de eco”, onde diferentes variações de um mesmo discurso são reiteradas. Esse processo não apenas intensifica a exposição, mas também molda a forma como interpretam o mundo: suas relações sociais passam a ser lidas a partir de uma lente masculinista, na qual a igualdade de gênero é frequentemente reinterpretada como uma ameaça ou um desequilíbrio de uma suposta ordem “natural”. É isso que o diferencia de formas históricas de machismo que se organizavam fora da ciberesfera.
Mais do que difundir discursos de ódio, esses espaços operam como ambientes de socialização e pertencimento, sobretudo para adolescentes. Em uma fase marcada pela construção da identidade, pela busca de reconhecimento e por inseguranças intensas, muitos jovens encontram nesses circuitos uma linguagem capaz de nomear frustrações e oferecer respostas simples para experiências complexas. Por isso, a adesão a esses conteúdos não costuma ocorrer de forma abrupta, mas por meio de uma radicalização gradual.
Esse processo é facilitado pelo fato de que tais discursos frequentemente se apresentam como caminhos de autoconhecimento, fortalecimento pessoal e amadurecimento masculino. Em vez de aparecerem de imediato como discursos extremados, chegam aos jovens revestidos de conselhos sobre disciplina, autoestima, desempenho e relações afetivas. Assim, a captura ocorre no plano afetivo.
A internet, historicamente, funcionou como espaço de sociabilidade e de elaboração simbólica para jovens que buscam escapar do isolamento e dar sentido às próprias experiências. No contexto atual, no entanto, esse mesmo ambiente tem favorecido o contato cada vez mais precoce com comunidades que transformam angústias da adolescência em ressentimento político e hostilidade contra mulheres e grupos dissidentes. O que está em jogo na circulação de ideias misóginas é formação de modos de sentir, interpretar e agir no mundo.
No Laboratório de Cultura Digital, partimos do entendimento de que a resposta à radicalização nas redes não está na proibição do uso das telas, mas na educação midiática e no letramento digital como parte de um projeto cidadania. Isso significa formar jovens que não apenas saibam usar dispositivos, plataformas e aplicativos, mas que sejam capazes de compreender criticamente o funcionamento do mundo digital, reconhecer seus interesses econômicos e políticos, identificar os mecanismos de manipulação, desinformação e captura afetiva, e agir de modo crítico diante deles.
A série de cartilhas Letramento Digital e Educação Popular foram pensadas como instrumentos pedagógicos para educadoras e educadores que atuam tanto na escola quanto em coletivos e comunidadescomunicades. Em vez de tratar a tecnologia como algo neutro, as cartilhas propõem refletir sobre quem cria as plataformas, quem as controla, quais desigualdades elas reproduzem e de que maneira essas desigualdades assumem novas formas no contexto digital. Assim, o letramento digital não se reduz à aquisição de competências técnicas, ele sobretudo envolve a capacidade de interpretar criticamente os ambientes digitais e de intervir neles.
Nesse sentido, ao abordar temas como software livre, colonialismo de dados, combate à desinformação, tecnopolíticas de gênero, racismo algorítmico e saúde mental no ambiente digital, as cartilhas procuram oferecer referências para a formação de jovens mais críticos, capazes de navegar no mundo digital sem se tornarem presas fáceis da lógica algorítmica e dos circuitos de radicalização. Seu papel, portanto, é duplo: de um lado, ampliar a compreensão sobre as dinâmicas sociais e políticas que estruturam a vida online; de outro, fortalecer práticas pedagógicas que ajudem a construir formas mais democráticas, reflexivas e responsáveis de habitar as redes.
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